Primeira escola quilombola integral do Ceará atende mais de 200 estudantes
Estudantes do 2º ano, Maria Eduarda Lima e Luciane Ferreira da Silva, apresentando trabalho na Escola de Ensino Médio de Tempo Integral Quilombola Antônia Ramalho da Silva. Foto: Fabiane de Paula Quando criança, Rosimar Agostinho Ramalho praticamente não teve acesso à escola. Quilombola da comunidade de Alto Alegre, em Queimadas, distrito de Horizonte, na Região Metropolitana de Fortaleza, ela cresceu trabalhando na roça e chegou à vida adulta sem saber ler e escrever. Apenas já idosa aprendeu a fazer contas, mas alimentou o sonho de que as novas gerações da comunidade tivessem oportunidades diferentes.
Hoje, aos 74 anos, Rosimar acompanha a transformação da realidade no território quilombola, onde mais de 200 adolescentes estudam em uma escola quilombola de tempo integral instalada dentro da própria comunidade. A Escola de Ensino Médio de Tempo Integral Quilombola Antônia Ramalho da Silva foi a primeira unidade do modelo no Ceará a aderir à jornada ampliada.
A sede própria da escola foi inaugurada em agosto de 2025, embora a iniciativa educacional já existisse anteriormente de forma improvisada. As primeiras atividades começaram de maneira informal, sob um cajueiro da comunidade, reunindo cerca de 70 alunos.
A origem do território quilombola está ligada à trajetória de Cazuza Ferreira da Silva, conhecido como Negro Cazuza, um africano escravizado que teria fugido de um navio negreiro ancorado no Rio Ceará, em Fortaleza, no fim do século XIX. Seus descendentes iniciaram o povoamento da região que hoje abriga a comunidade de Alto Alegre.
As discussões para implantação de uma escola quilombola estruturada começaram em 2016. O projeto ganhou força com o apoio da comunidade, da Prefeitura de Horizonte e do Governo do Estado, até ser incorporado à rede estadual de ensino em 2022. Atualmente, a unidade conta com 270 estudantes matriculados no ensino médio e na Educação de Jovens e Adultos (EJA).
A escola funciona em tempo integral para alunos do primeiro e segundo ano, que permanecem na unidade das 7h às 16h40. Além das disciplinas tradicionais, os estudantes participam de atividades voltadas à valorização da cultura afro-brasileira, da identidade negra e das tradições quilombolas.
Entre as iniciativas desenvolvidas está o “Tempo Quilombo”, projeto que incentiva pesquisas dentro da própria comunidade. Nas segundas-feiras, os estudantes realizam trabalhos de campo para investigar histórias, memórias, lutas e tradições locais.
Segundo o diretor da escola, Gustavo Santos, a proposta fortalece o vínculo dos jovens com o território e amplia o interesse dos alunos pela própria história. O gestor também destaca a importância da formação antirracista dos professores e do currículo adaptado à realidade quilombola.
A estrutura da unidade inclui salas de aula, laboratórios de ciências e informática, biblioteca, auditório, quadra poliesportiva coberta, cozinha, refeitório e áreas de convivência.
Antes da criação da escola, muitos estudantes precisavam deixar a comunidade para cursar o ensino médio na sede do município, enfrentando dificuldades de deslocamento e evasão escolar.
Para Rosimar Agostinho, a escola representa uma conquista histórica da comunidade. Durante visita de técnicos e jornalistas à unidade, ela incentivou os jovens a valorizarem a oportunidade de estudar.
A estudante Ana Vitória de Souza da Silva, de 16 anos, relata que o novo modelo transformou a relação dos alunos com a própria identidade. Segundo ela, as pesquisas realizadas no território ajudam os estudantes a conhecerem suas origens e fortalecerem o sentimento de pertencimento.
Outras alunas da escola, Maria Eduarda Lima e Luciane Ferreira da Silva, também destacam que o tempo integral exige adaptação, mas afirmam que as novas experiências e os projetos culturais tornam a rotina mais enriquecedora.
A política de universalização do ensino médio em tempo integral no Ceará prevê a ampliação gradual do modelo em toda a rede estadual. Segundo especialistas, experiências como a da Escola Quilombola Antônia Ramalho da Silva demonstram a importância de adaptar o currículo às características culturais e sociais de cada comunidade.
Redação ANH/CE








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