Violência escolar avança no Ceará e expõe crise entre jovens e adolescentes
Episódios de violência foram registrados no Ceará tanto em escolas públicas quanto privadas. Foto: Thiago Gadelha O aumento dos casos de violência nas escolas do Ceará nos últimos dez anos acendeu um alerta entre educadores, especialistas, famílias e autoridades públicas. Dados do Sistema de Informação de Agravos de Notificação (Sinan), do Ministério da Saúde, mostram que o estado registrou 1.163 episódios de violência em ambientes escolares entre 2015 e 2025, envolvendo desde agressões físicas e bullying até ataques com objetos perfurocortantes, ameaças e violência sexual.
O crescimento é expressivo. Em 2015, foram contabilizados 38 casos. Já em 2025, o número saltou para 176 registros de violência interpessoal em escolas, o que representa um aumento superior a quatro vezes em uma década. O levantamento considera ocorrências envolvendo crianças e adolescentes de 1 a 19 anos e exclui casos de lesão autoprovocada.
Os episódios registrados revelam um cenário cada vez mais complexo dentro das instituições de ensino. Entre os tipos de violência contabilizados estão agressões físicas, ameaças, violência sexual, uso de objetos contundentes e perfurocortantes, além de episódios ligados ao bullying e à intimidação virtual. Os dados abrangem tanto escolas públicas quanto privadas.
Especialistas avaliam que a escalada da violência nas escolas reflete problemas estruturais da sociedade brasileira. Para o professor de Psicologia da Universidade Federal do Ceará (UFC), João Paulo Pereira Barros, a escola não está isolada das tensões sociais e acaba reproduzindo conflitos presentes fora dos muros escolares.
Segundo ele, fatores como desigualdade social, violência urbana, discursos de ódio nas redes sociais, isolamento provocado pela pandemia e o fortalecimento de comportamentos agressivos nas plataformas digitais contribuíram para intensificar os conflitos entre jovens.
“A escola não é uma ilha. Ela recebe os impactos de uma sociedade marcada historicamente pela violência. Muitas vezes, os estudantes reproduzem dentro da sala de aula comportamentos de humilhação, intimidação e exclusão que também são estimulados em outros espaços sociais e digitais”, explica.
Casos recentes reforçam a preocupação. Em maio deste ano, um adolescente de 16 anos morreu após ser atacado com um objeto perfurocortante por um colega dentro de uma escola estadual em Quixadá, no Sertão Central. A Secretaria da Segurança Pública e Defesa Social informou que a agressão teria sido motivada por episódios de bullying.
Outro episódio que ganhou repercussão ocorreu em Fortaleza, onde um estudante com deficiência foi vítima de agressões verbais, humilhações e constrangimento dentro de uma escola pública estadual. O adolescente foi filmado por outros alunos enquanto era forçado a comer bolo durante uma prática de bullying.
Os dados também mostram que a violência não está restrita à rede pública. Em dezembro de 2025, um estudante de 15 anos feriu um professor, uma coordenadora e outro aluno em uma escola particular de Fortaleza.
Para especialistas, o problema exige ações integradas envolvendo educação, assistência social, saúde mental, famílias e políticas públicas permanentes de prevenção.
A assistente social Ingrid Rabelo, do Centro de Defesa da Vida Herbert de Souza (CDVHS), afirma que muitos jovens convivem diariamente com situações de violência nos territórios onde vivem, o que impacta diretamente o ambiente escolar.
Pesquisa realizada pelo CDVHS em bairros da periferia de Fortaleza apontou que mais de 62% dos jovens entrevistados já presenciaram pessoas armadas em suas comunidades. Segundo a entidade, isso afeta o emocional, o rendimento escolar e até a frequência às aulas.
“O estudante chega à escola carregando medos, inseguranças e traumas do território onde vive. A violência urbana ultrapassa os muros da escola e interfere diretamente na aprendizagem e nas relações sociais”, destaca Ingrid.
Diante do cenário, especialistas defendem o fortalecimento da chamada cultura de paz nas escolas. O conceito, difundido pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco), propõe o diálogo, a mediação de conflitos, o respeito às diferenças e o combate às discriminações como estratégias de prevenção.

Projetos sociais desenvolvidos em comunidades de Fortaleza têm apostado em ações culturais, rodas de conversa, escuta psicológica e protagonismo juvenil para reduzir episódios de violência entre estudantes.
O poder público também afirma estar ampliando políticas de prevenção. A Secretaria Municipal da Educação de Fortaleza informou que mantém programas de mediação social e cultura de paz dentro das escolas, com agentes comunitários capacitados para identificar conflitos e atuar preventivamente.
Já a Secretaria da Educação do Ceará destacou ações como o Projeto Professor Diretor de Turma, programas de desenvolvimento socioemocional, presença de psicólogos e assistentes sociais nas regionais de ensino e a implantação de comissões de prevenção à violência contra crianças e adolescentes.
Além disso, o governo estadual elaborou protocolos de segurança e cartilhas voltadas ao enfrentamento da violência escolar, em parceria com órgãos da segurança pública.
Apesar das iniciativas, especialistas alertam que o combate à violência escolar exige ações contínuas e investimentos estruturais. Eles defendem maior presença de profissionais de saúde mental nas escolas, fortalecimento do diálogo com as famílias e ampliação de políticas públicas voltadas à juventude.
O avanço da violência nas instituições de ensino evidencia um desafio que vai além da segurança escolar e expõe questões sociais profundas que afetam diretamente crianças e adolescentes em todo o estado.
Redação ANH/CE








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