RN tem 63% de recusa familiar à doação de órgãos, acima da média nacional
Autorização dos familiares permanece necessária para a doação de órgãos. Foto: SESAP Seis em cada dez famílias consultadas no Rio Grande do Norte recusam a doação de órgãos de parentes após a morte. A taxa de negativa chega a 63% no Estado, acima da média nacional, que é de 42%. Os dados foram apresentados nesta segunda-feira (28) por Rogéria Medeiros, coordenadora da Central de Transplantes do Rio Grande do Norte.
Segundo a coordenadora, entre os principais motivos apontados pelas famílias estão o desejo de manter o corpo íntegro e o tempo necessário para concluir todo o processo de doação. Após a autorização, a Central pode levar cerca de 24 horas para realizar exames, verificar a compatibilidade, identificar possíveis receptores e organizar a retirada e o transplante dos órgãos.
O período pode ser especialmente difícil para familiares que estão enfrentando o luto e desejam realizar rapidamente o sepultamento. A preocupação com a aparência do corpo também aparece entre as justificativas para a recusa. Rogéria, no entanto, explica que a retirada dos órgãos é realizada por procedimento cirúrgico e que o corpo passa por sutura antes de ser liberado para a família.
“Na hora do velório, você não percebe, não tem a diferença”, afirmou a coordenadora.
Enquanto grande parte das famílias ainda recusa a doação, mais de mil pessoas aguardam atualmente por transplantes no Rio Grande do Norte. A maior fila é a de transplante de córnea, com 620 pacientes. Outros 370 aguardam por um rim e 30 estão na fila por transplante de medula óssea.
A fila por transplante de coração está zerada no Estado. De acordo com Rogéria, o único paciente que aguardava pelo órgão foi transplantado em julho.
Atualmente, o Rio Grande do Norte realiza transplantes de córnea, rim, coração e medula óssea. Já os pacientes que necessitam de transplante de fígado são encaminhados para outros estados, como Pernambuco e Ceará, porque o RN não possui equipe ou unidade hospitalar credenciada para realizar o procedimento.
O transplante de córnea é o que apresenta maior demanda no Estado. Segundo a coordenadora, dependendo do caso, o paciente pode receber alta e recuperar a visão no mesmo dia. Para que o procedimento seja realizado, porém, é necessário que haja tecido disponível de um doador falecido.
Família precisa autorizar
A legislação brasileira determina que a autorização da família é necessária para a doação de órgãos após a morte. A decisão cabe a parentes de primeiro grau, como pai, mãe, irmãos ou cônjuge. No caso de crianças, a autorização deve ser dada pelo pai e pela mãe.
Mesmo que a pessoa tenha manifestado em vida o desejo de ser doadora, a autorização familiar continua sendo necessária. Por isso, a Central de Transplantes orienta que as pessoas conversem antecipadamente com seus familiares sobre a intenção de doar órgãos.
Para Rogéria, saber previamente qual era a vontade do parente pode facilitar a decisão da família em um momento marcado pela dor. Um único doador pode beneficiar entre seis e dez pessoas, dependendo dos órgãos que possam ser aproveitados.
Como funciona a doação
O processo começa quando a equipe médica identifica a possibilidade de morte encefálica. A confirmação segue um protocolo que inclui avaliações realizadas por profissionais diferentes e exame complementar para verificar a ausência de atividade ou fluxo cerebral.
Após a confirmação da morte encefálica e a autorização da família, os profissionais avaliam quais órgãos podem ser aproveitados e verificam a compatibilidade com os possíveis receptores.
O tempo é um dos principais fatores para o sucesso do transplante. No caso do coração, por exemplo, existe uma janela de aproximadamente quatro horas entre a retirada do órgão e o transplante no receptor.
Quando um órgão não pode ser utilizado por um paciente do Rio Grande do Norte, a oferta é encaminhada inicialmente para outros estados do Nordeste. Caso não haja receptor compatível na região, a busca pode ser ampliada para outras partes do país.
Central enfrenta déficit de pessoal
A coordenadora também relatou que a Central de Transplantes do Rio Grande do Norte enfrenta déficit de profissionais e necessita ampliar sua estrutura física.
Apesar das limitações, houve crescimento no número de transplantes de córnea e rim na comparação entre os mesmos períodos de 2025 e 2026.
Outro avanço apontado pela Central foi um acordo de cooperação técnica firmado neste ano com o Serviço de Verificação de Óbitos. Segundo Rogéria, a parceria contribuiu para ampliar a captação de córneas no Estado.
Redação ANH/RN








COMENTÁRIOS