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Maceió,31/01/2026

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RN registra maior produção de leite da história apesar da seca

Assessoria
RN registra maior produção de leite da história apesar da seca Exibição de ordenha mecânica durante Festa do Boi 2025, realizada no Parque Aristófanes Fernandes, em Parnamirim. Foto: José Aldenir

Mesmo sob seca prolongada, Rio Grande do Norte atinge recorde histórico na produção de leite

Apesar de enfrentar um dos períodos de estiagem mais severos e prolongados dos últimos anos, o Rio Grande do Norte alcançou, em 2025, um feito inédito na sua história agropecuária. Pela primeira vez, a produção estadual de leite atingiu a média de 1 milhão de litros por dia, consolidando um novo patamar para a pecuária leiteira potiguar. O dado foi divulgado pelo secretário estadual de Agricultura, Pecuária e Pesca, Guilherme Saldanha, e aponta para uma profunda transformação estrutural do setor.

O resultado chama atenção não apenas pelo volume produzido, mas pelo contexto climático adverso em que foi alcançado. Segundo Saldanha, o crescimento em meio à seca prolongada reforça a capacidade de adaptação dos produtores e a eficácia das políticas públicas adotadas ao longo dos últimos anos. “Trata-se de um recorde obtido justamente em um cenário extremamente desafiador, o que demonstra a resiliência da atividade no estado”, avaliou.

A cadeia produtiva do leite está presente nos 167 municípios potiguares, com maior concentração nas regiões do Seridó e do Oeste, que juntas formam a principal bacia leiteira do Rio Grande do Norte. De acordo com o secretário, trata-se de uma atividade altamente capilarizada, com impacto direto na geração de emprego e renda, sobretudo nas áreas rurais e nos pequenos municípios do interior.

Produção no semiárido passa por mudança de paradigma

Produzir leite no semiárido nordestino exige estratégias específicas diante da irregularidade das chuvas e da limitação hídrica. Ainda assim, o desempenho recente indica uma mudança significativa na forma de conduzir a atividade. Para Saldanha, o crescimento observado é resultado de um processo de amadurecimento do setor. “Não existe pecuária sustentável no semiárido sem planejamento e sem reserva estratégica. O produtor precisa estar preparado para conviver com a seca”, afirmou.

Nesse cenário, o uso da palma forrageira, da silagem e da fenação tornou-se essencial para garantir a alimentação dos rebanhos durante os períodos mais críticos. O governo estadual, por meio da Emater-RN e em parceria com prefeituras, tem ampliado o suporte aos produtores, oferecendo assistência técnica, distribuição de equipamentos e programas voltados à produção e ao armazenamento de forragem, com foco especial na agricultura familiar.

Os investimentos em infraestrutura hídrica também têm sido determinantes para assegurar a continuidade da produção. A perfuração de poços, a implantação de barragens subterrâneas e o incentivo a pequenos sistemas de irrigação permitiram reduzir a vulnerabilidade dos rebanhos às longas estiagens, garantindo maior estabilidade produtiva.

Pequenos produtores impulsionam crescimento

Com exceção de poucas grandes propriedades, a pecuária leiteira potiguar é formada majoritariamente por pequenos e médios produtores, cuja produção diária varia entre 200 e 800 litros. Muitos deles são agricultores familiares que, nos últimos anos, passaram por um processo de profissionalização.

Segundo o secretário, tecnologias antes restritas a grandes fazendas passaram a fazer parte da rotina de pequenas propriedades. “Hoje é comum encontrar ordenha mecânica, inseminação artificial e programas de melhoramento genético em propriedades familiares no Seridó”, destacou. Ele ressaltou ainda que projetos financiados com recursos do Banco Mundial, além da atuação de instituições como o Sebrae, tiveram papel decisivo no aumento da produtividade e na melhoria da qualidade do leite.

Outro fator considerado estratégico foi a política de preços adotada pelo governo estadual. Por meio do Programa do Leite, os produtores vêm recebendo cerca de R$ 2,80 por litro, valor que ajudou a compensar a queda de preços registrada em outras regiões do país, pressionadas pelas importações do Mercosul. De acordo com Saldanha, essa política foi fundamental para garantir a permanência dos produtores na atividade durante a estiagem e a crise nacional do setor.

Queijos potiguares ganham mercado e identidade

Um dos reflexos mais visíveis da evolução da cadeia leiteira no Rio Grande do Norte está no fortalecimento da produção de queijos. Há cerca de uma década, entre 80% e 90% dos queijos consumidos no estado eram provenientes de outras regiões do país. Atualmente, esse cenário se inverteu, e cerca de 80% dos produtos disponíveis nos supermercados são fabricados em território potiguar.

O estado abriga desde grandes indústrias de laticínios, com capacidade de processamento superior a 150 mil litros de leite por dia, até uma rede crescente de queijeiras artesanais. Esse avanço foi impulsionado pela Lei Estadual nº 10.230/2017, conhecida como Lei Nivardo Mello, que regulamentou a produção artesanal e garantiu segurança jurídica e sanitária aos pequenos produtores.

Com o apoio do Instituto de Defesa e Inspeção Agropecuária do Rio Grande do Norte (Idiarn), responsável pelo controle sanitário e pela concessão de registros, os queijos artesanais potiguares passaram a acessar mercados fora do estado, ampliando a visibilidade e o valor agregado da produção local.

Perspectivas e desafios para o setor

Apesar dos avanços, o secretário avalia que o mercado interno ainda oferece grande espaço para expansão, uma vez que parte significativa do leite e dos derivados consumidos no estado ainda é importada de outras regiões. “Existe um mercado muito atrativo a ser ocupado pela produção local”, afirmou.

Para os próximos anos, a expectativa é de continuidade do crescimento, embora Saldanha alerte para a necessidade de atenção às importações de leite em pó e queijos, que podem gerar concorrência desleal. “É fundamental proteger o produtor nacional, especialmente no semiárido, onde os custos de produção são naturalmente mais elevados”, destacou.

Convivência com o clima como estratégia permanente

Na avaliação do secretário, a sustentabilidade da pecuária leiteira potiguar passa, necessariamente, pela adaptação definitiva às condições climáticas da região. Tecnologias simples, como o reaproveitamento de águas cinzas para irrigação da palma forrageira, têm se mostrado eficientes para garantir alimentação ao rebanho durante longos períodos de seca.

“A estiagem vai continuar existindo. O que mudou foi a forma de enfrentá-la”, concluiu Saldanha. Segundo ele, o desafio agora é manter o ciclo virtuoso de crescimento, fortalecer a produção local e assegurar políticas públicas que garantam competitividade, renda e permanência das famílias no campo, consolidando a pecuária leiteira como um dos pilares do desenvolvimento do semiárido potiguar.

Redação ANH/RN




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