RN registra maior produção de leite da história apesar da seca
Exibição de ordenha mecânica durante Festa do Boi 2025, realizada no Parque Aristófanes Fernandes, em Parnamirim. Foto: José Aldenir Mesmo sob seca prolongada, Rio Grande do Norte atinge recorde histórico na produção de leite
Apesar de enfrentar um dos períodos de estiagem mais severos e prolongados dos últimos anos, o Rio Grande do Norte alcançou, em 2025, um feito inédito na sua história agropecuária. Pela primeira vez, a produção estadual de leite atingiu a média de 1 milhão de litros por dia, consolidando um novo patamar para a pecuária leiteira potiguar. O dado foi divulgado pelo secretário estadual de Agricultura, Pecuária e Pesca, Guilherme Saldanha, e aponta para uma profunda transformação estrutural do setor.
O resultado chama atenção não apenas pelo volume produzido, mas pelo contexto climático adverso em que foi alcançado. Segundo Saldanha, o crescimento em meio à seca prolongada reforça a capacidade de adaptação dos produtores e a eficácia das políticas públicas adotadas ao longo dos últimos anos. “Trata-se de um recorde obtido justamente em um cenário extremamente desafiador, o que demonstra a resiliência da atividade no estado”, avaliou.
A cadeia produtiva do leite está presente nos 167 municípios potiguares, com maior concentração nas regiões do Seridó e do Oeste, que juntas formam a principal bacia leiteira do Rio Grande do Norte. De acordo com o secretário, trata-se de uma atividade altamente capilarizada, com impacto direto na geração de emprego e renda, sobretudo nas áreas rurais e nos pequenos municípios do interior.
Produção no semiárido passa por mudança de paradigma
Produzir leite no semiárido nordestino exige estratégias específicas diante da irregularidade das chuvas e da limitação hídrica. Ainda assim, o desempenho recente indica uma mudança significativa na forma de conduzir a atividade. Para Saldanha, o crescimento observado é resultado de um processo de amadurecimento do setor. “Não existe pecuária sustentável no semiárido sem planejamento e sem reserva estratégica. O produtor precisa estar preparado para conviver com a seca”, afirmou.
Nesse cenário, o uso da palma forrageira, da silagem e da fenação tornou-se essencial para garantir a alimentação dos rebanhos durante os períodos mais críticos. O governo estadual, por meio da Emater-RN e em parceria com prefeituras, tem ampliado o suporte aos produtores, oferecendo assistência técnica, distribuição de equipamentos e programas voltados à produção e ao armazenamento de forragem, com foco especial na agricultura familiar.
Os investimentos em infraestrutura hídrica também têm sido determinantes para assegurar a continuidade da produção. A perfuração de poços, a implantação de barragens subterrâneas e o incentivo a pequenos sistemas de irrigação permitiram reduzir a vulnerabilidade dos rebanhos às longas estiagens, garantindo maior estabilidade produtiva.
Pequenos produtores impulsionam crescimento
Com exceção de poucas grandes propriedades, a pecuária leiteira potiguar é formada majoritariamente por pequenos e médios produtores, cuja produção diária varia entre 200 e 800 litros. Muitos deles são agricultores familiares que, nos últimos anos, passaram por um processo de profissionalização.
Segundo o secretário, tecnologias antes restritas a grandes fazendas passaram a fazer parte da rotina de pequenas propriedades. “Hoje é comum encontrar ordenha mecânica, inseminação artificial e programas de melhoramento genético em propriedades familiares no Seridó”, destacou. Ele ressaltou ainda que projetos financiados com recursos do Banco Mundial, além da atuação de instituições como o Sebrae, tiveram papel decisivo no aumento da produtividade e na melhoria da qualidade do leite.
Outro fator considerado estratégico foi a política de preços adotada pelo governo estadual. Por meio do Programa do Leite, os produtores vêm recebendo cerca de R$ 2,80 por litro, valor que ajudou a compensar a queda de preços registrada em outras regiões do país, pressionadas pelas importações do Mercosul. De acordo com Saldanha, essa política foi fundamental para garantir a permanência dos produtores na atividade durante a estiagem e a crise nacional do setor.
Queijos potiguares ganham mercado e identidade
Um dos reflexos mais visíveis da evolução da cadeia leiteira no Rio Grande do Norte está no fortalecimento da produção de queijos. Há cerca de uma década, entre 80% e 90% dos queijos consumidos no estado eram provenientes de outras regiões do país. Atualmente, esse cenário se inverteu, e cerca de 80% dos produtos disponíveis nos supermercados são fabricados em território potiguar.
O estado abriga desde grandes indústrias de laticínios, com capacidade de processamento superior a 150 mil litros de leite por dia, até uma rede crescente de queijeiras artesanais. Esse avanço foi impulsionado pela Lei Estadual nº 10.230/2017, conhecida como Lei Nivardo Mello, que regulamentou a produção artesanal e garantiu segurança jurídica e sanitária aos pequenos produtores.
Com o apoio do Instituto de Defesa e Inspeção Agropecuária do Rio Grande do Norte (Idiarn), responsável pelo controle sanitário e pela concessão de registros, os queijos artesanais potiguares passaram a acessar mercados fora do estado, ampliando a visibilidade e o valor agregado da produção local.
Perspectivas e desafios para o setor
Apesar dos avanços, o secretário avalia que o mercado interno ainda oferece grande espaço para expansão, uma vez que parte significativa do leite e dos derivados consumidos no estado ainda é importada de outras regiões. “Existe um mercado muito atrativo a ser ocupado pela produção local”, afirmou.
Para os próximos anos, a expectativa é de continuidade do crescimento, embora Saldanha alerte para a necessidade de atenção às importações de leite em pó e queijos, que podem gerar concorrência desleal. “É fundamental proteger o produtor nacional, especialmente no semiárido, onde os custos de produção são naturalmente mais elevados”, destacou.
Convivência com o clima como estratégia permanente
Na avaliação do secretário, a sustentabilidade da pecuária leiteira potiguar passa, necessariamente, pela adaptação definitiva às condições climáticas da região. Tecnologias simples, como o reaproveitamento de águas cinzas para irrigação da palma forrageira, têm se mostrado eficientes para garantir alimentação ao rebanho durante longos períodos de seca.
“A estiagem vai continuar existindo. O que mudou foi a forma de enfrentá-la”, concluiu Saldanha. Segundo ele, o desafio agora é manter o ciclo virtuoso de crescimento, fortalecer a produção local e assegurar políticas públicas que garantam competitividade, renda e permanência das famílias no campo, consolidando a pecuária leiteira como um dos pilares do desenvolvimento do semiárido potiguar.
Redação ANH/RN





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