Prefeitos denunciam valores abusivos em cachês de artistas no Ceará
Valores cobrados, segundo os prefeitos, destoam da realidade fiscal dos municípios. Foto: Reprodução / Prefeitura de Maracanaú O aumento expressivo dos cachês cobrados por artistas para apresentações em eventos públicos tem se tornado um dos principais desafios enfrentados por prefeitos do Ceará. Em meio a um cenário de restrições orçamentárias e queda na arrecadação, gestores municipais afirmam que os valores exigidos pelo mercado artístico estão cada vez mais distantes da realidade financeira das cidades, colocando em risco investimentos em áreas essenciais.
Segundo relatos dos prefeitos, os reajustes praticados ano após ano superam, com folga, índices inflacionários e não encontram respaldo na situação econômica dos municípios. Muitos gestores avaliam que as prefeituras passaram a atuar em uma relação desigual com produtoras e empresários do setor, ficando praticamente sem poder de negociação diante da alta demanda por artistas consagrados, especialmente em períodos festivos como Carnaval, São João e festas de emancipação política.
O problema se intensifica em 2025, diante de um contexto econômico adverso. Mudanças nas regras do Imposto de Renda reduziram repasses, enquanto o reajuste do salário mínimo elevou despesas obrigatórias com folha de pagamento e serviços terceirizados. Com isso, o espaço fiscal para a promoção de eventos culturais diminuiu significativamente.
Diante desse quadro, prefeitos articulam uma mobilização conjunta para tentar frear a escalada dos cachês. O presidente da Associação dos Municípios do Estado do Ceará (Aprece), Joacy Júnior, afirmou que está sendo organizada uma reunião com lideranças municipalistas de outros estados, principalmente do Nordeste, para discutir estratégias coletivas. A intenção é construir uma resposta coordenada que gere impacto real no mercado de shows.
Durante assembleia realizada na sede da Aprece, em Fortaleza, os gestores aprovaram medidas que buscam evitar que os altos custos com eventos comprometam políticas públicas prioritárias. Entre os encaminhamentos estão a criação de parâmetros mais claros para contratações artísticas, o fortalecimento da transparência nos processos e a construção de instrumentos jurídicos que estabeleçam limites considerados razoáveis.
Prefeitos relataram exemplos concretos do problema. Há casos em que cachês passaram de R$ 300 mil para R$ 500 mil de um ano para o outro, ou saltaram de R$ 1 milhão para R$ 1,5 milhão, sem mudanças significativas na estrutura do evento. Para os gestores, esse tipo de aumento torna inviável a manutenção do padrão de festas tradicionais.
Apesar das dificuldades, os prefeitos reconhecem a importância dos eventos públicos para a economia local. Festas populares movimentam setores como comércio informal, hotelaria e alimentação, além de promoverem acesso à cultura e ao lazer. No entanto, os gestores afirmam que é necessário encontrar um ponto de equilíbrio entre a promoção de eventos e a responsabilidade fiscal.
Em alguns municípios, a solução tem sido reduzir o porte das festas ou buscar formatos alternativos. Há cidades que optaram por contratar atrações regionais, investir em eventos comunitários ou firmar parcerias com órgãos estaduais, federais e instituições do terceiro setor. Mesmo assim, prefeitos relatam pressão da população para a manutenção de grandes shows, o que aumenta o desgaste político das decisões.
Em casos mais extremos, algumas prefeituras decidiram cancelar festas tradicionais. Caucaia, Jaguaretama e Tauá estão entre os municípios que suspenderam o Carnaval neste ano, alegando dificuldades financeiras, situações emergenciais e a necessidade de priorizar investimentos em saúde, educação e enfrentamento da seca. As decisões, embora justificadas pelas gestões, geraram reações distintas entre moradores e setores ligados ao turismo e à cultura.
O debate também chegou aos órgãos de controle. O Tribunal de Contas do Estado do Ceará (TCE-CE) lançou ferramentas para ampliar a transparência dos gastos com eventos, como o Portal Carnaval Transparente, que reúne informações sobre contratações e valores pagos. Já o Ministério Público do Ceará é visto por alguns gestores como um possível parceiro na construção de acordos que exijam maior clareza na composição dos preços cobrados por artistas e produtoras.
Paralelamente às ações locais, os prefeitos acompanham a tramitação de um projeto de lei no Congresso Nacional que busca estabelecer limites para gastos públicos com shows. A proposta prevê critérios proporcionais à receita e à população dos municípios, além de exigir ampla divulgação dos valores pagos e estimular a contratação de artistas locais. Para os gestores, uma legislação específica poderia trazer maior segurança jurídica e reduzir distorções.
Enquanto não há uma solução definitiva, prefeitos seguem tentando conciliar demandas culturais da população com a necessidade de manter as contas públicas equilibradas. O consenso entre eles é de que os eventos são importantes, mas não podem avançar sobre recursos destinados a serviços básicos. O desafio, agora, é transformar a articulação política em medidas concretas que garantam sustentabilidade financeira e preservem o acesso da população à cultura.
Redação ANH/CE




COMENTÁRIOS