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Crise do Ueno Bank provoca renúncia do presidente do Paraguai

Assessoria
Crise do Ueno Bank provoca renúncia do presidente do Paraguai Queda do presidente ocorre poucas horas depois de o Congresso paraguaio iniciar o processo para discutir sua destituição. (Daniel Duarte/AFP)


O presidente do Paraguai, Santiago Peña, renunciou ao cargo nesta quinta-feira (5), em meio à maior crise política de seu governo, iniciado em agosto de 2023. A decisão ocorreu após o colapso do Ueno Bank provocar protestos populares, pedidos de impeachment e a retirada do apoio de importantes lideranças do Partido Colorado, legenda à qual o presidente pertence.

Em pronunciamento gravado, Peña afirmou que decidiu deixar a Presidência em nome da estabilidade do país, da paz social e da preservação das instituições democráticas. A renúncia antecipa o fim de seu mandato, que estava previsto para agosto de 2028.

A saída foi anunciada poucas horas depois de o Congresso paraguaio iniciar a discussão de um processo de julgamento político para destituí-lo. O pedido de impeachment havia sido apresentado por parlamentares da oposição e dissidentes do próprio Partido Colorado.

A pressão aumentou quando o presidente do Congresso, Basilio Núñez, e o ex-presidente Horacio Cartes, uma das principais lideranças da legenda, retiraram o apoio político a Peña. Cartes anunciou que o partido acompanharia o processo de julgamento político, enquanto Núñez exigiu publicamente a renúncia do presidente.

Crise financeira desencadeou queda do presidente

O estopim da crise foi a intervenção do Banco Central do Paraguai no Ueno Bank, uma das principais instituições financeiras digitais do país. A autoridade monetária identificou uma grave deterioração da situação financeira da instituição, com problemas relacionados a empréstimos concedidos a partes relacionadas e à contabilização de despesas como ativos.

A situação deixou milhões de clientes temporariamente sem acesso a contas, cartões e outros serviços bancários. O banco atendia aproximadamente 2,9 milhões de pessoas, em um país com cerca de 6,1 milhões de habitantes, e mantinha centenas de milhões de dólares em depósitos públicos.

O bloqueio dos serviços provocou filas, protestos e confrontos entre manifestantes e policiais na capital, Assunção. Clientes cobraram a liberação dos recursos, enquanto trabalhadores e aposentados demonstraram preocupação com valores de fundos previdenciários depositados na instituição.

O governo anunciou medidas emergenciais para acelerar a devolução de parte dos recursos, com utilização do Fundo de Garantia de Depósitos e transferência de contas para outras instituições financeiras.

Ligação de Peña com o banco ampliou pressão política

A crise financeira ganhou dimensão política depois que veio à tona a informação de que Peña havia sido acionista do grupo controlador do Ueno Bank até 2025. A oposição passou a questionar um possível conflito de interesses e a responsabilidade do presidente na condução do caso.

Na quarta-feira (4), 35 deputados apresentaram formalmente um pedido de julgamento político contra Peña e o vice-presidente Pedro Alliana. O documento apontava, entre outras acusações, possíveis conflitos de interesses relacionados à participação anterior do presidente no Ueno Holding.

A retirada do apoio do Partido Colorado representou um duro golpe para Peña, especialmente porque Horacio Cartes, ex-presidente do país entre 2013 e 2018 e uma das figuras mais influentes da legenda, havia sido um dos principais responsáveis por sua ascensão política.

Vice-presidente deve assumir a Presidência

Com a renúncia, o vice-presidente Pedro Alliana deverá assumir o comando do Paraguai e completar o mandato até agosto de 2028, conforme estabelece a Constituição do país.

A sucessão, no entanto, ocorre em meio a um cenário delicado, já que Alliana também era alvo do pedido de julgamento político apresentado pelos deputados.

Com a posse do vice-presidente na Presidência, a Vice-Presidência ficará vaga. Como a vacância ocorrerá nos dois últimos anos do período constitucional, caberá ao Congresso escolher um substituto.

A crise também provocou mudanças no Banco Central paraguaio. Carlos Carvallo deixou a presidência da instituição após Peña solicitar sua renúncia. Antes de assumir o comando da autoridade monetária, Carvallo havia dirigido o próprio Ueno Bank, circunstância que também passou a ser questionada.

A renúncia de Peña abre uma nova etapa de instabilidade política no Paraguai. O próximo governo terá como principais desafios recuperar a confiança no sistema financeiro, garantir a devolução dos recursos bloqueados e esclarecer as suspeitas envolvendo a gestão do Ueno Bank.

Redação ANH




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