Trump propõe “nova Gaza” com arranha-céus e investimentos bilionários
Presidente dos EUA, Donald Trump (MANDEL NGAN / AFP) A proposta apresentada pelos Estados Unidos para a reconstrução da Faixa de Gaza reacendeu debates internacionais sobre o futuro do território palestino e o papel das grandes potências na mediação de conflitos no Oriente Médio. Anunciado nesta quinta-feira (22), durante o Fórum Econômico Mundial de Davos, o plano prevê uma transformação radical da região em um prazo de até três anos, convertendo áreas devastadas pela guerra em um moderno polo urbano, com arranha-céus residenciais, infraestrutura de alto padrão e forte apelo imobiliário à beira-mar.
O presidente norte-americano Donald Trump foi o principal porta-voz da iniciativa, que integra a criação de um novo “Conselho de Paz”. Segundo ele, a proposta vai além da reconstrução física de Gaza e busca estabelecer um novo modelo de desenvolvimento econômico e social para o território. “Gaza tem um potencial extraordinário. É uma área costeira privilegiada, que pode se tornar algo grandioso”, afirmou o presidente, destacando a viabilidade do projeto sob a ótica do mercado e dos investimentos internacionais.
Embora apresentado como um mecanismo de apoio à paz e à reconstrução, o Conselho de Paz também foi interpretado por analistas como uma tentativa dos Estados Unidos de ampliar sua influência diplomática, atuando de forma paralela às estruturas tradicionais da Organização das Nações Unidas (ONU). A iniciativa surge em um contexto de críticas ao papel da ONU no conflito e de tensões crescentes entre Israel, Palestina e a comunidade internacional.
O plano ganhou ainda mais destaque com a participação de Jared Kushner, genro de Trump e um dos principais articuladores da política norte-americana para o Oriente Médio. Mesmo sem cargo oficial, Kushner tem atuado diretamente nas negociações do cessar-fogo em Gaza e apresentou projeções ambiciosas para o território. De acordo com ele, a reconstrução exigiria investimentos iniciais de pelo menos 25 bilhões de dólares, destinados à recuperação de estradas, redes de energia, saneamento básico, hospitais, escolas e moradias.
As estimativas indicam que, em um horizonte de dez anos, a economia de Gaza poderia alcançar um Produto Interno Bruto de 10 bilhões de dólares, impulsionado por setores como construção civil, serviços, indústria e turismo. A promessa é de geração de empregos em larga escala, com renda média anual de 13 mil dólares por família, cenário que, segundo os idealizadores do plano, garantiria pleno emprego e redução da dependência de ajuda humanitária internacional.
Kushner argumentou que, historicamente, cerca de 85% da economia de Gaza esteve baseada em assistência externa, o que, na avaliação dele, compromete a dignidade e a autonomia da população local. “A ajuda é importante em momentos de crise, mas não pode ser o único pilar econômico. As pessoas precisam de oportunidades reais para prosperar”, afirmou.
Apesar do discurso otimista, o projeto enfrenta resistência e ceticismo. Organismos internacionais e entidades de direitos humanos alertam que a situação humanitária na Faixa de Gaza segue crítica. Segundo a ONU, bairros inteiros foram destruídos, hospitais operam de forma precária e centenas de milhares de palestinos vivem em condições extremamente vulneráveis, mesmo após o avanço do cessar-fogo.
Outro ponto sensível do plano é a exigência do desarmamento total do Hamas, condição considerada essencial pelos Estados Unidos para atrair investidores privados e doadores internacionais. A medida, no entanto, é vista como um dos maiores desafios políticos e de segurança da proposta, diante da complexidade do conflito e das disputas internas no território palestino.
Enquanto isso, especialistas da ONU que investigam possíveis violações de direitos humanos esperam que a criação do Conselho de Paz facilite o acesso à região. Atualmente, Israel restringe a atuação da Comissão Internacional Independente de Investigação da ONU em Gaza, grupo que apura denúncias de crimes de guerra e possíveis atos de genocídio no conflito. Para o presidente da comissão, Srinivasan Muralidhar, qualquer iniciativa que amplie o diálogo e permita a entrada de observadores internacionais pode representar um avanço, desde que respeite os princípios do direito internacional.
O anúncio do plano, portanto, marca mais um capítulo nas tentativas de redefinir o futuro de Gaza. Enquanto os Estados Unidos defendem um modelo baseado em grandes investimentos, desenvolvimento urbano acelerado e integração ao mercado global, críticos apontam a necessidade de priorizar soluções políticas duradouras, garantias de direitos humanos e participação efetiva da população local nas decisões sobre o destino do território.
O debate segue aberto e deve ganhar novos contornos nas próximas semanas, à medida que mais detalhes do projeto forem divulgados e a comunidade internacional se posicione sobre a viabilidade e os impactos reais da chamada “nova Gaza”.
Redação ANH





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