Maracatu Aurora Africana promove inclusão e preserva história e ancestralidade
Ensaios de Maracatu Nação - Foto: Crysli Viana/DP Foto O som grave das alfaias ecoa pelas ruas de Jaboatão dos Guararapes muito além do período carnavalesco. No barracão do Maracatu Aurora Africana, o ritmo marca não apenas o compasso do cortejo, mas também a rotina de dezenas de pessoas que encontraram na cultura popular um caminho de pertencimento, disciplina e transformação social.
À frente dessa trajetória está Mestre Fábio Sotero, cuja história pessoal se confunde com a do próprio maracatu. Criado em um contexto de vulnerabilidade social, ele cresceu ouvindo previsões negativas sobre o futuro. A arte, no entanto, apresentou uma alternativa concreta. Ainda adolescente, Fábio se aproximou do Maracatu Nação e, no início dos anos 2000, ajudou a fundar o Aurora Africana, que começou de forma modesta, reunindo cerca de 30 integrantes no primeiro desfile.
Com o passar dos anos, o grupo se consolidou como uma das mais expressivas nações de maracatu da Região Metropolitana do Recife. Atualmente, reúne cerca de 350 integrantes no domingo de carnaval, mas sua atuação vai além da festa. O barracão funciona como espaço contínuo de convivência, aprendizado e acolhimento, especialmente para jovens em situação de risco social.
Segundo Fábio, muitos dos integrantes chegaram ao grupo após experiências de evasão escolar, envolvimento com o tráfico ou pequenos delitos. A rotina de ensaios, oficinas e apresentações passou a impor uma nova relação com o tempo, com regras coletivas e com a responsabilidade. “O maracatu não muda ninguém sozinho, mas cria condições para que a pessoa faça outras escolhas”, resume o mestre.
Essa dimensão social ganhou reconhecimento institucional entre 2009 e 2012, quando o Aurora Africana foi certificado como Ponto de Cultura. Nesse período, o grupo desenvolveu oficinas em uma unidade de internação de adolescentes. Jovens em cumprimento de medidas socioeducativas participaram de apresentações externas ao lado do maracatu, sob escolta, sem registros de tentativa de fuga. Alguns mantiveram o vínculo com o grupo mesmo após deixarem a unidade, reforçando o papel da cultura como ferramenta de reintegração social.

Histórias individuais ajudam a dimensionar esse impacto. É o caso de Gabriela da Silva Lins, de 34 anos, que se aproximou do Aurora Africana após experiências com dança em sua cidade natal, Moreno. No maracatu, iniciou em alas simbólicas ligadas à história da escravidão e, anos depois, assumiu a função de cabocla, personagem central no cortejo, responsável por abrir e fechar caminhos durante o desfile.
Mais do que um papel cênico, o maracatu se tornou para Gabriela um espaço de sustentação emocional em um período marcado pela depressão. A participação constante nos ensaios, na costura dos figurinos e na preparação das apresentações ajudou a reorganizar sua rotina e fortalecer vínculos. “O barracão virou uma segunda casa”, define.
Situação semelhante viveu Tiago Lima da Silva, de 18 anos. O primeiro contato com o Aurora Africana aconteceu de forma casual, ao ouvir o batuque durante uma passagem pela Casa da Cultura de Ipojuca. Sem experiência musical, aprendeu a tocar alfaia no próprio grupo, com apoio coletivo. Hoje, além de batuqueiro, atua na produção do maracatu e descreve o grupo como uma família.
O Maracatu Nação, também conhecido como maracatu de baque virado, tem origem nas coroações simbólicas dos reis do Congo durante o período colonial e mantém vínculos profundos com religiões de matriz africana, como o candomblé e a jurema. Urbano e ritualizado, é estruturado em torno de uma corte real que carrega significados históricos, religiosos e políticos.
Ao longo dos séculos, essa manifestação cultural enfrentou perseguições, preconceito e tentativas de apagamento. Ainda assim, sobreviveu como espaço de resistência negra e afirmação identitária. No caso do Aurora Africana, essa resistência se traduz não apenas na preservação de ritmos e símbolos, mas também na construção cotidiana de alternativas de vida para quem encontra no batuque uma possibilidade concreta de futuro.
Às vésperas de mais um carnaval, o som que sai do barracão anuncia o desfile que tomará as ruas. Mas, para quem vive o maracatu ao longo do ano, o impacto já está feito: ele se manifesta na permanência, na reconstrução de trajetórias e na força coletiva que segue pulsando, mesmo quando os tambores silenciam.
Redação ANH/PE




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