Canabidiol muda rotina de famílias com crianças autistas em Fernando de Noronha
Desde 2012, pesquisadores têm observado o potencial do extrato da canabis para tratamentos neurológicos e psicológicos. (Foto: Pixabay) Um projeto voltado ao uso medicinal do canabidiol (CBD) tem transformado a rotina de famílias com crianças neurodivergentes em Fernando de Noronha. A iniciativa, realizada por meio de uma parceria entre a Associação Brasileira de Estudos dos Canabinóides (Abecmed), a Associação de Mães Atípicas de Fernando de Noronha (AMA-FN) e a Administração Distrital da ilha, oferece consultas médicas gratuitas, acompanhamento especializado e distribuição de medicamentos à base de cannabis para moradores do arquipélago.
Entre os beneficiados está a professora Rayane Dixie dos Santos, de 31 anos, mãe solo de uma criança diagnosticada com Transtorno do Espectro Autista (TEA) nível 2 de suporte e Transtorno de Déficit de Atenção com Hiperatividade (TDAH). Antes do início do tratamento, ela enfrentava uma rotina marcada por crises frequentes de agressividade e agitação do filho, além da sobrecarga de conciliar os cuidados com a criança, o trabalho e a criação de outro filho.
“Eu sou a única que cuida dele. A rotina pesada de mãe atípica me levou a um quadro de ansiedade generalizada e problemas com sono”, relatou.
Há cerca de três meses, após iniciar o tratamento com canabidiol, a professora observou uma redução significativa das crises e melhora no comportamento da criança. O acesso ao tratamento foi viabilizado pelo Projeto Noronha, que realizou mutirões de atendimento na ilha nos meses de fevereiro e maio deste ano.
Ao todo, a iniciativa promoveu 126 consultas médicas gratuitas e distribuiu 221 frascos de óleo de canabidiol. Agora, o projeto avança para uma nova etapa com a implantação de uma sede permanente em um terreno cedido pela Administração Distrital, onde serão oferecidos serviços de acolhimento, orientação e acompanhamento contínuo às famílias.
Segundo Alexandre Assis, diretor da Abecmed, o objetivo é criar uma rede permanente de apoio. “A maior parte dos mutirões de saúde realizados no Brasil acontece apenas uma vez. Em Noronha estamos construindo algo diferente, com retornos periódicos e estrutura permanente para atender essas famílias”, afirmou.
Além das crianças neurodivergentes, o projeto também direciona atenção especial às mães, frequentemente responsáveis exclusivas pelos cuidados dos filhos. O programa oferece acompanhamento para mulheres que enfrentam quadros de ansiedade, depressão e esgotamento emocional decorrentes da sobrecarga do cuidado.
Uma das beneficiadas é Rebeca Allen, presidente da Associação de Mães Atípicas de Fernando de Noronha. Mãe de um menino de sete anos diagnosticado com TDAH e Transtorno do Processamento Sensorial, ela desenvolveu depressão e transtorno de ansiedade generalizada enquanto buscava tratamento para o filho.
Após iniciar o uso do canabidiol em fevereiro, Rebeca relatou melhora na qualidade do sono, no controle da ansiedade e na organização da rotina. O filho também apresentou avanços comportamentais, com redução da agressividade e maior participação nas atividades escolares e terapêuticas.
A iniciativa busca responder a uma demanda crescente de saúde pública no arquipélago. Fernando de Noronha conta apenas com o Hospital São Lucas para atendimentos públicos de média complexidade. Casos mais especializados exigem deslocamentos para Recife, localizada a cerca de 545 quilômetros da ilha.
Dados levantados durante o segundo mutirão realizado pela Abecmed apontam que 70,6% dos pacientes atendidos procuraram assistência por questões relacionadas à saúde mental. Entre as principais queixas estavam ansiedade, insônia, dor crônica, crises de pânico, alterações de humor e dificuldades de concentração.
Os levantamentos também identificaram uma presença significativa de condições relacionadas ao neurodesenvolvimento, incluindo diagnósticos de autismo, TDAH e Transtorno Opositor Desafiador (TOD).
Especialistas envolvidos no projeto destacam que o canabidiol tem sido utilizado como tratamento complementar em diversas condições neurológicas e psiquiátricas. Segundo o neurologista Eduardo de Sá Faveret, os canabinoides possuem propriedades anti-inflamatórias e antioxidantes que podem auxiliar no controle de sintomas ligados ao autismo, epilepsia, ansiedade e outros transtornos.
Outro diferencial apontado pelos profissionais é que, ao contrário de alguns medicamentos tradicionalmente utilizados para controlar agressividade e agitação em pessoas com TEA, o canabidiol tende a não provocar sedação intensa. Isso permite que os pacientes mantenham a participação ativa em terapias multidisciplinares, consideradas fundamentais para o desenvolvimento e a qualidade de vida.
Além do atendimento direto às famílias, o Projeto Noronha pretende ampliar pesquisas sobre os impactos sociais, econômicos e de saúde relacionados ao uso medicinal da cannabis, transformando a experiência da ilha em referência para futuras iniciativas voltadas ao cuidado de pessoas neurodivergentes e seus familiares.
Redação ANH/PE






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