Israel realiza eleições em meio à guerra e à divisão política
Membro da comunidade drusa deposita seu voto em seção eleitoral na vila drusa de Ein Qiniye, nas Colinas de Golã, território anexado por Israel. (JALAA MAREY/AFP)
Israel realiza nesta terça-feira (27) suas primeiras eleições desde os ataques do grupo islamista Hamas, em 7 de outubro de 2023. Em um país profundamente dividido, a votação é vista como um teste à guinada política à direita durante o governo do primeiro-ministro Benjamin Netanyahu.
A eleição ocorre em meio às consequências de quase três anos de conflitos regionais, com questionamentos sobre a condução da resposta militar israelense e a segurança nacional no centro da campanha.
As urnas abriram às 7h (2h, no horário de Brasília) e serão fechadas às 22h (17h, em Brasília).
Quase 7,3 milhões de eleitores estão aptos a votar, entre eles mais de um milhão de jovens que participarão de uma eleição pela primeira vez. Pesquisas indicam que a maioria desse grupo se identifica com posições de centro-direita ou de direita.
O pleito também ocorre em um momento de crescente isolamento internacional de Israel, em meio às críticas à ofensiva militar na Faixa de Gaza, à expansão dos assentamentos israelenses e à violência de colonos na Cisjordânia ocupada. A influência da extrema direita e do nacionalismo religioso também se tornou um dos principais temas do debate político.
As pesquisas mais recentes citadas na reportagem apontam empate entre Netanyahu, o primeiro-ministro que permaneceu por mais tempo no cargo, e seu principal adversário, o centrista Gadi Eisenkot, ex-comandante militar que ingressou mais recentemente na política.
“Quero mudar nosso país. Quero um bom governo de centro”, declarou Alexandra, de 65 anos, à agência France-Presse (AFP), em um local de votação em Jerusalém.
Já Noam, de 78 anos, afirmou considerar a eleição decisiva porque, em sua avaliação, parte da população rejeitou os valores fundamentais sobre os quais o Estado de Israel foi criado. Ele também manifestou preocupação com possíveis ameaças à separação dos Poderes e à igualdade entre os cidadãos.
Netanyahu, de 77 anos, ocupou o cargo de primeiro-ministro por 19 anos, em períodos não consecutivos. Durante a campanha, concentrou seu discurso na experiência em segurança e na relação próxima com o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump.
Desde os ataques de 7 de outubro, Israel conduziu operações militares na Faixa de Gaza, ocupou áreas do sul do Líbano e realizou ataques contra o Irã, com apoio americano. No mesmo período, o território israelense também foi alvo de ataques iranianos e de ações do Hamas, do Hezbollah, no Líbano, e dos houthis, no Iêmen.
Segurança e críticas ao governo
A aposentada Zipporah Bennett, de 85 anos, afirmou que votaria em Netanyahu por considerar que ele tem experiência para conduzir o país em momentos difíceis.
“Ele tem todo o apoio do governo dos Estados Unidos”, disse. “Acho que é um homem sem medo de agir.”
Netanyahu voltou ao poder em dezembro de 2022, à frente de uma coalizão que inclui partidos ultranacionalistas de extrema direita, cuja influência política cresceu nos últimos anos.
O ministro da Segurança Nacional, Itamar Ben Gvir, representante da direita radical, votou no assentamento de Kiryat Arba, na Cisjordânia ocupada. Apoiadores do ministro instalaram cartazes e alto-falantes no local.
A oposição também critica a participação de partidos ultraortodoxos na coalizão governista. Essas legendas defendem a manutenção de isenções ao serviço militar obrigatório para estudantes de instituições religiosas judaicas, em um momento em que as Forças Armadas enfrentam dificuldades para ampliar o número de recrutas.
Outra crítica recorrente a Netanyahu é a falta de responsabilização política pelas falhas de segurança que permitiram os ataques de 7 de outubro de 2023, considerados os mais letais da história de Israel.
Eisenkot prometeu criar uma comissão independente para investigar as circunstâncias que possibilitaram os ataques, uma medida que o governo Netanyahu não adotou.
O ex-comandante militar e seu partido, Yashar, lideram um bloco informal que reúne legendas de diferentes posições, da direita à centro-esquerda.
Apesar de se opor à criação de um Estado palestino e apoiar os assentamentos israelenses, Eisenkot prometeu conter a violência de colonos na Cisjordânia.
Partidos árabes podem influenciar a formação do governo
Nem Netanyahu nem Eisenkot anunciaram publicamente uma possível aliança com partidos de maioria árabe, que representam cerca de 21% da população israelense e podem desempenhar papel decisivo na formação do próximo governo caso a disputa termine equilibrada.
A divulgação dos resultados definitivos pode levar vários dias. A expectativa é de que nenhum partido consiga, sozinho, alcançar as 61 cadeiras necessárias para formar maioria no Parlamento israelense, o Knesset, que possui 120 integrantes.
Nesse cenário, a formação de uma coalizão governista poderá levar semanas ou meses. Caso as negociações fracassem, Israel poderá ser convocado a realizar novas eleições.








COMENTÁRIOS