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Maceió,27/10/2026

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Fortaleza registra mais de 1,3 mil idosos em situação de rua

Assessoria
Fortaleza registra mais de 1,3 mil idosos em situação de rua Número de pessoas idosas em situação de rua cresceu nos últimos anos. Foto: Fabiane de Paula

Fortaleza tem mais de 1,3 mil idosos em situação de rua, aponta levantamento

Pelo menos 1.333 pessoas idosas em situação de rua em Fortaleza recebiam o Benefício de Prestação Continuada (BPC) em 2025. Os dados foram divulgados pelo Observatório da Pessoa Idosa, plataforma lançada neste mês pela Prefeitura da capital cearense.

O número é quase o dobro do registrado em 2023, quando 740 idosos beneficiários do programa estavam em situação de rua. Em 2024, o total havia chegado a 1.045 pessoas, conforme levantamento realizado pela reportagem com base nos dados do observatório.

A plataforma reúne informações organizadas em sete eixos e 49 indicadores, com o objetivo de identificar desigualdades enfrentadas pela população idosa e contribuir para a elaboração e o aprimoramento de políticas públicas.

O BPC é um benefício assistencial que garante o pagamento mensal de um salário mínimo a pessoas com 65 anos ou mais e a pessoas com deficiência de qualquer idade, desde que atendam aos critérios de baixa renda. Para receber o benefício, não é necessário ter contribuído para o Instituto Nacional do Seguro Social (INSS).

Mulheres e pessoas negras são maioria entre idosos vulneráveis

A população idosa em situação de rua representa uma parcela do grupo mais amplo de pessoas idosas de baixa renda em Fortaleza. Atualmente, 177.747 pessoas com mais de 60 anos estão inscritas no Cadastro Único para Programas Sociais do Governo Federal (CadÚnico) na capital, o equivalente a 14,3% do total de inscritos.

Entre os idosos cadastrados, 87% se declaram pretos ou pardos, enquanto as mulheres correspondem a 63,9%.

Segundo Iracema Machado, coordenadora de Assistência Social da Secretaria Municipal dos Direitos Humanos e Desenvolvimento Social de Fortaleza (SDHDS), o aumento da população idosa em situação de rua está relacionado a diferentes fatores, incluindo o envelhecimento populacional e o empobrecimento após a pandemia de Covid-19.

“Então, muitas pessoas perderam suas moradias, perderam suas referências, e acabaram ficando em situação de rua”, explicou.

A coordenadora também apontou os conflitos familiares como um dos principais fatores que levam pessoas à situação de rua, além do uso abusivo de substâncias psicoativas, de problemas de saúde mental e do enfraquecimento dos vínculos familiares.

Prefeitura prevê ampliar atendimento

De acordo com Iracema Machado, a Prefeitura de Fortaleza planeja ampliar a rede de atendimento à população em situação de rua. Entre as medidas previstas estão a abertura de uma nova unidade do Centro de Referência Especializado para População em Situação de Rua (Centro Pop), no bairro Papicu, ainda em 2026, e o aumento das vagas em pousadas sociais, de 240 para 300.

A gestão municipal também prevê requalificar espaços de acolhimento e ampliar as vagas de aluguel social, que atualmente somam 170.

Os Centros Pop oferecem atendimento cotidiano e serviços voltados à população em situação de rua, incluindo acesso à higiene. Já os espaços de acolhimento disponibilizam assistência mais abrangente, com alimentação e outros cuidados.

Segundo a coordenadora, Fortaleza tem cerca de 11 mil pessoas em situação de rua. Ela reconhece, no entanto, que a rede de proteção ainda precisa ser ampliada para atender à demanda.

Conflitos familiares e falta de renda agravam situação

O Grupo Espírita Casa da Sopa, que atua há 31 anos no Centro de Fortaleza, oferece diariamente 100 refeições gratuitas, além de itens de higiene e atividades educativas e terapêuticas por meio da Escola Mandacaru.

A socióloga e coordenadora administrativa da instituição, Lídia Valesca Bonfim Pimentel, afirma que muitos dos atendidos são idosos ou apresentam sinais de envelhecimento precoce devido às condições precárias de vida nas ruas.

Segundo ela, mulheres frequentemente chegam a essa situação após perderem familiares e ficarem sem autonomia financeira ou acesso à moradia. Algumas dedicaram anos ao cuidado de parentes e não desenvolveram uma trajetória profissional que lhes garantisse renda própria.

“Eu morava com meu pai e minha mãe, meu pai e minha mãe morreram, eu já estava com uma certa idade, aí meus irmãos ou alguém ficou com a casa, e não me deu direito à casa”, relatou a socióloga, reproduzindo histórias ouvidas na instituição.

Entre os homens atendidos, Lídia observa com maior frequência situações relacionadas ao uso abusivo de substâncias, especialmente álcool. Ela ressalta, porém, que a solidão e o sofrimento mental afetam pessoas de ambos os sexos e podem dificultar a saída das ruas.

Centro concentra população em situação de rua

A região central de Fortaleza concentra parte significativa da população em situação de rua devido à presença de serviços públicos, instituições de caridade e equipamentos de assistência, como restaurantes populares.

Segundo Lídia Valesca, algumas pessoas idosas recebem aposentadoria ou BPC e conseguem alugar quartos precários na região, mas isso não significa que tenham deixado a situação de rua.

Ela explica que a condição não se restringe a dormir em praças ou sob marquises, mas também envolve viver e sobreviver em espaços públicos sem moradia adequada.

Mesmo entre quem recebe benefícios sociais, as despesas com aluguel e dívidas podem comprometer a renda. No Centro de Fortaleza, os quartos em condições precárias citados pela socióloga custam entre R$ 400 e R$ 500.

Para a especialista, a concentração de serviços na região central reforça a necessidade de descentralizar os equipamentos de atendimento, permitindo que as pessoas tenham acesso à assistência em seus próprios territórios.

Lídia também destaca a baixa escolaridade e as dificuldades de reinserção no mercado de trabalho como fatores que contribuem para a permanência nas ruas. Segundo ela, um levantamento municipal de 2021 apontou que 17% da população em situação de rua não sabia ler nem escrever.

A socióloga avalia que a combinação entre vulnerabilidade econômica, dificuldades de acesso ao trabalho, sofrimento mental e uso abusivo de substâncias torna mais complexa a superação da situação de rua.

Redação ANH/CE




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