Primeiro açude público do Brasil chega aos 120 anos praticamente seco no Ceará
Parede principal de barramento do Açude Cedro, em Quixadá. Foto: Fabiane de Paula Açude do Cedro completa 120 anos com apenas 0,64% da capacidade no Ceará
O Açude do Cedro, localizado em Quixadá, no Sertão Central do Ceará, completa 120 anos nesta segunda-feira (26) com apenas 0,64% da capacidade total de armazenamento. Inaugurado em 26 de outubro de 1906, o reservatório é considerado a primeira barragem pública do Brasil e representa um marco histórico da engenharia hídrica nacional.
Com capacidade para armazenar 126 milhões de metros cúbicos de água, o açude foi idealizado ainda durante o Império, por determinação de Dom Pedro II, após as grandes secas que atingiram o Nordeste entre 1877 e 1879. A obra, concluída durante a República, levou 16 anos para ser finalizada.
Apesar da importância histórica, o reservatório deixou de abastecer Quixadá há quase duas décadas. Atualmente, essa função é desempenhada pelo Açude Pedras Brancas, que também represa o Rio Sitiá.
Segundo dados da Companhia de Gestão dos Recursos Hídricos do Ceará (Cogerh), o maior volume registrado pelo Cedro nos últimos 20 anos ocorreu em junho de 2009, quando atingiu 35,22% da capacidade. Desde então, o nível da água apresentou uma tendência de queda, chegando a ficar praticamente seco em fevereiro de 2017 e nos primeiros meses de 2022.
Em 2023 e 2024, o reservatório voltou a receber água e alcançou quase 5% da capacidade em junho de 2024. Posteriormente, o volume voltou a diminuir.
Monumento histórico e atração turística
Tombado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), o Açude do Cedro também se destaca pela arquitetura e pela paisagem formada pela barragem em arco e pela Pedra da Galinha Choca, um dos principais cartões-postais de Quixadá.
A parede principal tem 450 metros de extensão e foi construída com pedras extraídas da própria região. A estrutura conta ainda com guarda-corpo de ferro e pilares de pedra natural esculpidos.
Ao longo de sua história, o açude atingiu a capacidade máxima e sangrou em cinco ocasiões: 1924, 1925, 1974, 1975 e 1989. Desde então, não voltou a transbordar.
De acordo com o coordenador estadual do Departamento Nacional de Obras Contra as Secas (Dnocs), Joacir Moreira de Sousa, o reservatório está praticamente no chamado volume morto, nível abaixo do necessário para a captação convencional de água.
Por que o açude tem dificuldade para acumular água?
O secretário dos Recursos Hídricos do Ceará, Ramon Flávio Gomes Rodrigues, aponta características da bacia hidrográfica e a construção de outros reservatórios na região como fatores que dificultam a recarga do Cedro.
Segundo ele, a bacia que contribui para o abastecimento do açude é relativamente pequena. Além disso, outros reservatórios construídos rio acima retêm parte da água que poderia chegar ao local.
Pequenos barramentos instalados ao longo do Rio Sitiá também reduzem o fluxo de água destinado ao reservatório.
Entre as alternativas discutidas para aumentar a recarga está a possibilidade de interligação com outros mananciais. A iniciativa, entretanto, exige estudos de engenharia que considerem a disponibilidade hídrica, o aproveitamento da água e as perdas por evaporação.
Importância histórica e social
A construção do Açude do Cedro está diretamente relacionada às políticas de enfrentamento às grandes secas no Nordeste. Segundo o historiador Tyrone Candido, professor da Universidade Estadual do Ceará (Uece), as obras públicas foram defendidas, naquele período, como uma forma de enfrentar a crise e empregar a população sertaneja.
Milhares de trabalhadores participaram de atividades como escavação, quebra de pedras, transporte de terra e construção da barragem. O historiador destaca que a obra também evidencia as contradições sociais das políticas de socorro às populações atingidas pela seca.
Ao longo do século XX, o açude contribuiu para a transformação econômica e social de Quixadá, abrigando iniciativas relacionadas à agropecuária e à experimentação de espécies vegetais e animais.
Mesmo com a redução do volume de água e a perda da função de abastecimento, o Açude do Cedro continua sendo uma referência cultural e turística. Sua arquitetura, associada à Pedra da Galinha Choca, permanece como um dos símbolos mais conhecidos do município.








COMENTÁRIOS